.vida

#20. acasos. se não tivesse ido no show do paul. se eu não fosse ruiva. (des)controle. dès vus. de mombojó a alanis. parasita. redemoinho em dia quente. cenas de um casamento. bagdogs. jovem místico.


🎼para ler ouvindo essa do mombojó: a cara da minha época universitária, nada no horizonte e sem boletos ainda

fiquei em dúvida se eu deveria chamar essa flowsmag™ de .vida ou .escolhas. optei por .vida porque nem tudo foi consciente ou opção necessariamente. às vezes acredito em destinos e forças maiores, porque são caminhos tão interessantes que fico pensando “não é possível esse roteirista”.

dois exemplos bem aleatórios abaixo.

se eu não tivesse ido a um show do paul mc cartney, não estaria hoje aqui em são paulo. já foram umas três news sem mencionar paul, configura recorde. mas enfim - porque fui a um show dele, virei a noite em um avião rumo a uma entrevista de seleção de doutorado em outra cidade, cheguei em cima da hora na faculdade e como previsto foi um total fiasco (nível: respondi quando a banca me perguntou sobre bibliografia que eu tava ‘lendo coisas do foucault’, e o professor da banca julgadora só repetiu ‘ah, COISAS do foucault’ - eu soube na hora que tava reprovada com louvor). mas foi ótimo, porque no ano seguinte mudei o projeto pra um tema do qual eu gostava de verdade e passei em são paulo, onde eu realmente queria, com direito a conseguir uma bolsa dificílima que me proporcionou estudar uns meses fora. 

se eu não fosse ruiva, não estaria no meu atual emprego hoje, onde recentemente fui promovida (o que torna a produção semanal de flowsmag um ato heróico de auto sacrifício). isso porque viajei pela revista de decoração onde trabalhava para uma feira de móveis no rio grande do sul, lá conheci uma jornalista que também é ruiva, depois quando vim para são paulo mandei um email perguntando se ela sabia de algum frila, deu tudo certo e passei uns sete anos lá. e essa mesma amiga me indicou para a vaga que se tornou meu trabalho no último um ano e meio. 

e se eu tivesse movido uma peça
o que teria sido?

não sei. simplesmente viajo com essas teias de possibilidades, com esses nano acasos e micro decisões, com uma visão então limitada ao momento presente e que acaba repercutindo tanto no futuro. coisas que nem tinham tanta importância, mas quando a gente olha para trás foram tipo mega essenciais, que existem só quando colocadas em uma grande perspectiva. não é maluco?  ao mesmo tempo, o-que-poderia-ter-sido também aflige. a gente faz tanta coisa, conhece tanta gente, mas nem tudo vai render um super desdobramento. 

fico pensando no quanto as coisas fogem totalmente ao controle (o que é angustiante e, ao mesmo tempo, nos tira um pouco da responsabilidade e traz certo alívio, tem uma certa beleza, rende uma boa história às vezes). algo que deu errado em um momento, mas que depois foi melhor assim - e a gente nunca aceita muito na hora em que acontece. isso rola com empregos, com relacionamentos, com coisas adiadas e algumas escolhas que a gente insiste e depois nem era pra ser - e teria sido melhor assim.

muitas vezes a gente (se) vê por aí com planners, agendinhas, excel 📊, listas, alarmes. uma ilusão absurda de que podemos controlar as coisas, um autoconvencimento tão frágil. tadinhos de nós. aí vem um negócio chamado VIDA e passa na cara a nossa insignificância. a vida e a natureza são tão maiores que qualquer um de nós. lições que a gente nem achava que precisaria aprender mas que se impõem. e pronto.

nos vendem uma ilusão de controle e planejamento, que normalmente gera frustração porque nem tudo depende da gente, mas de outros cruzamentos que estão acontecendo longe da nossa zona de atuação. assim como pode ser legal admirar a beleza do imperfeito, a beleza do imprevisto também pode ser interessante. 

ainda que muitas coisas sejam governadas pelo mais puro suco do acaso, acho que é fundamental a gente SE AJUDAR. o famoso me ajude a te ajudar. então nada custa uma energia boa, abrir caminhos, fazer o bem, não puxar tapete de ninguém, não produzir um carma que retorne na forma de miséria e doença pra você mesmo, não contribuir para o mundo e a sua própria vida ficarem piores do que já estão. o básico.

é vida que chama.


Well, life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out
When you think everything's gone wrong and everything blows up
In your face

(alanis em ironic) 


dès vus 

trata-se da percepção de que algo um dia irá virar uma lembrança. é a capacidade de observar o presente se transformando em memória. é um dia se lembrar daquele momento e ele significar algo totalmente diferente. 

aprendi neste vídeo curtinho e lindo (legendado em português) que vi nessa news também linda da clara.


aquele momento sensacional sobre não fazer planos, do filme parasita:


“mas César, meu bem, de passos em falso
são feitas todas as importâncias do mundo"

essa frase tem tudo a ver com essa edição de hoje. achei bonita, é do livro de contos de jarid arrais, redemoinho em dia quente. gostei bastante, é afetivo sem afetação, ao contrário do livro misterioso que parou a internet (risos). mas sim, ultimamente muitos livros que se propõem afetivos me parecem mais afetados do que qualquer outra coisa. excessivos no estilo, na intenção de emocionar, nas narrativas que se apegam a detalhes que pouco acrescentam e só evidenciam pretensão em muitos casos. redemoinho em dia quente é exatamente o contrário. 

a escrita cuidadosa cria um imaginário interessante, onde encontrei muita verdade. é o ceará onde vivi da infância à idade adulta. ele surge repleto de gente, de momentos, de sotaques, com as cadeiras espaguete, a vida na calçada, as casas coloridas do interior. ao mesmo tempo, violências sempre no pano de fundo. é uma visão atualizada e fresca, nada romantizada mas muito sensível, de um lugar e de um tempo, quase sempre no feminino.

gostei especialmente dos contos Voz, Cachorro de Quintal, Sacola, Cinco mil litros, Moto de Mulher, Telhado quebrado com gente morando dentro, Gesso, Novo elemento e Olhos de cacimba. 

gostei também desse pedaço:


cenas de um casamento

olha, vou contar pra vocês. poucos filmes e séries recentes me causaram tanto mal estar como cenas de um casamento, na hbo. refilmagem de ingmar bergman em cinco episódios (aqui achei a versão dele em filme), tem uma produção intimista com cenas iniciais de bastidores, nos transportando para o interior da casa e das emoções dos personagens. imagina que cada episódio de uma hora é basicamente o casal, mira e jonathan, discutindo a relação e sem contato com o mundo exterior. chega no limite em muitos momentos. é profundo. desgasta. 

é o tipo de narrativa que se passa muito mais dentro do que fora, ainda que tenha instantes de catarse. acho que entra na minha categoria de filmes com baphos em pequenos locais, gênero tiny places horror, mas que poderia ser um therapy horror tranquilamente.

assisti até o episódio #4 com um nó no peito, em algumas cenas eu ‘não, gente, não façam issooo’, ‘oooô mulher’, ‘jonathan, rapaz, melhor não’, ‘quem nunca’, numa angústia. muito da série traz esse tema de hoje, da vida, das escolhas que nos ajudam a nos construir como pessoas e também nossos relacionamentos. não tenho traumas e questões afetivos (não que eu tenha descoberto ainda hahaha), mas é inevitável se colocar no lugar e no inferno pessoal do casal. a gente carrega um piano junto com eles.

ave maria esses dois no red carpet. perdi tudo nesse vídeo.

para não dizer que é tudo ótimo, acho que poderiam ter mais cenas com silêncios. sabe, aqueles silêncios cheios de significados, que podem remeter a intimidade, a falta de intimidade, a constrangimento, a parar de se importar. eu que sou uma grande entusiasta da riqueza do silêncio senti um pouco falta desses espaços para criar tensão, nuances e uma espessura maior nas emoções. às vezes a imposição em verbalizar só deixa tudo meio prolixo. curiosa para ver a versão original do bergman.

tava lendo um livro esses dias que cita schopenhauer, mas não encontrei a fonte original. mas vem a calhar a frase. a personagem diz que tem um texto do schop (íntima) que fala que “toda relação afetiva é uma possibilidade de agressão”. hahahaha dado que ele era o suco do pessimismo, é totalmente possível. nessa energy:

um centro de compras apenas com bad vibes, o shopping hauer. 👀


intimista com os bagdogs

A post shared by bagdogs (@bagdogs)

jovem místico

A post shared by Sebastião Salgados (@sebastiao.salgados)

e o futuro podcast literário de maria bethania? não tenho condições de ouvir essa mulher falando sobre clarice e mais. chamará tabuleiro. perfeitah. a partir de 4 de novembro.


sextou mergulhando no café como se não houvesse hoje nem amanhã

A post shared by Paola Jhanitsa Cáceres (@pao_jhanitsa)

beijos e obrigada, a quem chegou aqui por acaso 😎

[enviado em 08.10.2021]