.criadores

#13. precisamos ser produtores de conteúdo? desejo de parecer. professional influencer. 15 minutos de anonimato. em situação de barril. kiss my asset. se bartleby fizesse home office. filmes&séries.

a pretensão tem destruído o mundo. talvez um dos maiores sintomas (e a palavra sintoma não é casual aqui) seja essa nova necessidade ou imposição de todos serem criadores. nem falo de todo mundo virar tiktoker, até dou um passo atrás: no mínimo precisamos definir nossa personalidade para comunicar quem somos. como uma marca. como um produto. 

nos sintetizar para caber. às vezes é essa minha sensação. nos simplificar para o mundo nos entender e nos absorver de forma mais fácil e rápida. aí vamos entrando numas de ser personagens de nós mesmos. “o viajante”, “a fashionista”, “a especialista em tudo”, “o blogueiro de livros que recebe 40 obras por mês com cara blasé”, “a chapadinha de endorfina”, “a autêntica”, “o misterioso que posta silhuetas borradas nos stories”, “o cozinheiro”, “a esotérica”, “o que não se rotula, mas com isso se rotula”, “a desconstruída”, “o positivo”, “a hipster rica que quer parecer pobrinha”, “a natural com seu corpo”, “o neo marxista”, “os pais de planta”, todos no insta mais perto de você.

eu mesma posso ser uma ou mais dessas espécies de fauna e flora acima, entrando ainda no grupo de “escritores (risos) de newsletters”. e certamente nos nichos de “aquarianos no modo avião”, “padeiras” e “problematizadores”.

vocês já me conhecem o bastante para supor o tanto de reflexões e questões que lancei a mim mesma antes de voltar a escrever em público e a fazer uma newsletter, especialmente me perguntando se o mundo precisa de MAIS UMA newsletter para satisfazer meu narcisismo. tanto plástico no mundo, já. na falta de conclusões, comecei aqui. mas sempre considero a desimportância da coisa.

daí o meu ponto nem é a aura ou o ethos que cada um constrói em torno de si, afinal quem sou eu na fila do pão e nada disso é da minha conta. como dizem os religiosos praticantes, não julgardes (essas flexões verbais que só quem manja bíblias e orações em geral sabe, tipo vós seríeis etc).

meu ponto na verdade é o trabalho que é se dedicar a se produzir para parecer. ainda que seja um processo inconsciente, é um trabalho. que normalmente tem um objetivo de transmitir autenticidade e ser aceito. e se produzir também não é uma palavra casual. tem a ver com produção mesmo, neoliberalisticamente falando.

o desejo de parecer não é novidade. o sociólogo georg simmel, ao falar sobre moda, já comentava o quanto a dinâmica do crescimento urbano já no século 19 favorecia a exibição das pessoas (ricas) e de um desejo de diferenciação que no limite só levava à uniformização. simmel deve ter morrido tipo nos anos 30 e olha a bola que ele cantou lá atrás, não é mesmo. admiro premonição.

um pensador contemporâneo e bem conhecido retoma exatamente essa reflexão em outro contexto. “para Byung-Chul Han, as pessoas se vendem como autênticas porque ‘todos querem ser diferentes uns dos outros’, o que força a ‘produzir a si mesmo’. e é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque `nessa vontade de ser diferente prossegue o igual`”. E completa: “os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. vivendo, assim, `no deserto, ou no inferno, do igual`” (tem mais nessa matéria do el país).

se até então toda essa ideia de ser produtor de si e de um conteúdo (geralmente sobre si) parecia uma escolha, cada vez mais se coloca como imposição (como várias coisas na moda e no capitalismo em geral). inclusive em formatos dirigidos também pelas plataformas, tipo ‘agora é só vídeo’ e de repente todos estão dançando a mesma música e falando com a mesma voz. a obrigação de todos produzirmos conteúdo tem nos padronizado, por menor e menos ambiciosa que possa parecer a originalidade de cada um.

e se é pra ser igual, talvez bastassem algumas pessoas apenas produzindo, sei lá. às vezes dá pra gente ser apenas audiência e ainda assim termos nossa voz. vende-se a ideia de que para ser alguém você precisa ser creator, mas talvez seja exatamente o contrário: o creator muitas vezes desaparece como indivíduo. vira só mais um. sei lá. vamos seguindo a dança de trabalhar de graça para redes sociais, quem nunca.

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armadilhas

me flagrei recentemente pesquisando uns serviços de profissionais no instagram e fiquei: nossa, mas fulaney tem poucos seguidores, tem um feed simplão, será que o trabalho dela é bom? e aí vi a armadilha em que eu tava caindo, o terço com o rosto de zuckerberg em uma das mãos, trêmula como sempre, avaliando a competência de alguém por número de seguidores. olha a cilada do professional influencer. porque se dependesse disso, só teria gente competente, boa e inteligente com 15 milhões de seguidores - e a gente sabe que não funciona assim. às vezes é exatamente o contrário.

A post shared by @contente.vc

dia desses tava lendo esse texto com opiniões de li jin, referência dessa chamada creators economy, prevendo que todos seremos criadores de conteúdo em 10 anos. minha pressão baixou na hora, porque não quero esse destino ahahaha. e esse outro texto, sobre o arquétipo do protagonista, um tipo que quer ser o centro das atenções e da narrativa (a gente conhece umas 3 milhões de pessoas do circulo íntimo de amigos que se encaixam) e que essa personalidade ascendente vai se disseminar especialmente no mundo pós-pandêmico (oxalá ele exista), em que as pessoas estarão querendo se contar ao mundo. a matéria destaca inclusive britta grace, coach de 20 e poucos anos (às vezes invejo a autoestima da geração z), tiktoker motivacional e autoproclamada dona dessa main character energy. enfim, vários rolês que rendem muito e que não consegui resumir.

basicamente tudo é um update anabolizado do “todos terão seus 15 minutos de fama” que em certa medida se tornou realidade. 

A post shared by @vccachorro

we have a barril situation

acho que meus 15 minutos de fama mais recentes foram no dia em que tive a infeliz ideia de comentar num post de uma famosa no instagram. ela não entendia porque o chaves era um personagem tão querido e eu (tola) falei que tinha sido criada na base do chaves e não entendia era como não tinha gerado mais traumas na minha geração. porque rolava violência doméstica, etarismo, machismo, gordofobia e criança em situação de barril. recebi por mais de um mês xingamentos de nativos digitais de 19 anos que têm dificuldade em interpretação básica de texto, supondo que eu não havia entendido o chaves, entre outras microagressões gratuitas e que até hoje nem entendi - nem me darei ao trabalho. 

fato é que ainda hoje o prefixo EM SITUAÇÃO DE é encontrado por aí de várias formas. minha opção foi trancar meus perfis pra me deixarem em paz e desver todo mundo me chamando de essa tal de flows. não dou conta dos 15 minutos de fama, achei um inferno.

será que um dia teremos 15 minutos de anonimato e sem notificações? onde tá você andy warhol


empresário de si

mas voltando. foucault (amo) já tinha cantado essa bola mais de 30 anos antes, quando ele começou a pensar sobre o neoliberalismo e a definir as bases da ideia do indivíduo como empresário de si - não apenas no sentido de saber se divulgar, mas como alguém ocupado em se microgerenciar. sua saúde nos ínfimos detalhes, suas emoções, seus afetos e seu trabalho para se otimizar, entre outros aspectos da vida. ou simplesmente ortorexia psicológica (tudo tem um nome nesse mundo, né, especialmente comportamentos vistos como patológicos inventados diariamente), que é a obsessão moderna por autoaperfeiçoamento. o que, já sabemos, traz mais problemas do que vantagens na vida da pessoa exausta em situação de brasil.

fico só me perguntando se é possível todo mundo ser protagonista. se tem lugar físico, emocional e holofote pra esse monte de personagem principal. se é só uma ilusão de poder que nos vendem pra nos transformar em commodity ou em asset. tudo é asset agora, ‘fulana é um asset no nosso plano’. no final, coerente tá a monja que desce redondo, comprada pela ambev. e se não fosse a ambev, seria pela magalu. ou pelo facebook. sei lá se o futuro é todo mundo ser adquirido pelo mercado livre ou virar NFT e ter 15 minutos de fama, bugando todas as premonições juntas do calendário maia.

fiz de graça mais uma blusa para os farialimers, kiss my asset


e então me lembrei de dois livros pequenos que têm um pouco a ver. como me tornei estúpido é um com o qual me identifico demais, há anos. a sinopse:

a ignorância é um dom para antoine, personagem principal da sátira de martin page, como me tornei estúpido. para o jovem estudante de aramaico, filho de pai birmanês e mãe bretã, a inteligência e a consciência crítica se transformam em empecilhos para alcançar a felicidade na sociedade atual. por isso, o anti-herói criado pelo autor francês decide investir na idiotice como forma de sobrevivência: do alcoolismo ao antidepressivo, ele tenta todos os meios possíveis para se tornar uma nulidade.

amo algumas partes do livro, mas essa resume minha exaustão e meu social muitas vezes: “antoine não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo. (...) não se tratava de renunciar gratuitamente à razão: a finalidade era participar da vida em sociedade.”

para fazer parte desse mundo, muitas vezes é preciso renunciar à inteligência e à crítica em prol da saúde mental e dançar a música, assumindo que o surrealismo do dia a dia está aí para nos testar. 

outro livro, esse li mais recentemente, foi bartleby, o escrivão, um clássico de herman melville que dialoga com essa auto-anulação. o personagem principal é praticamente um anti-protagonista, assim como no livro acima. e, ao mesmo tempo, é aí onde ele cria a brecha para uma espécie de liberdade, ainda que repleta de privações.

o personagem título é um jovem escrivão judicial que, cansado do trabalho burocrático, decide adotar o "não" como lema e o "nada" como estilo de vida. 

a sinopse é curta, assim como o livro, marcado pelo bordão do escrivão: prefiro não fazer, com o qual responde educadamente a TUDO, inclusive demandas de trabalho. achei saúde mental e privilégio ele mandar um ‘prefiro não fazer’ pro patrão, ainda que a história se desenrole de forma melancólica. mas a recusa, o ‘não’ como afirmação pura e simples em plena wall street onde trabalhava, o não-esforço, o não-fazer são um ato de coragem ou de total desistência.

mas e se Bartleby fizesse home office, será que desenvolveria seu potencial?

tudo é uma transgressão tão interessante - e que no livro é mostrado como assusta, como intimida, como as pessoas não sabem lidar com quem diz simplesmente não. às vezes a gente só queria fracassar em paz, dar o nosso pior na quinta-feira e ser livre. É TÁ TUDO BEM.


vendo

  • white lotus (hbo). ainda falta o último capítulo, que deixei para amanhã. não mudou minha vida, mas gostei da construção dos personagens a ponto da gente se importar com eles (já vi tanto filme que tanto faria se explodissem todos). a história: a primeira cena revela que houve um assassinato. e depois a história volta até o ponto em que um grupo de turistas chega de férias num resort no havaí. a gente vai entrando na camada mais sombria da vida pessoal de cada um. gostei dos easter eggs nos livros que alguns personagens leem, como um heteronormativo limitadinho que lê um livro chamado blink: thinking without thinking. e a mulher que casou com esse macho tóxico lendo elena ferrante.

  • arde madri (hbo). professora super conservadora é convocada para se disfarçar de empregada para espionar a atriz ava gardner, que vai morar em madri durante a ditadura de franco nos anos 60. são episódios de meia horinha em preto e branco que distraem, com um pouco de ironia e história no almoço - e tem aberturas legais.

vi

  • tell me who i am (netflix). um dos meus pânicos é perder a memória. esse documentário traz o tema e é muito sensível, fiquei impactada em como é delicado - pois poderia ser daqueles com narração dramática etc. ele conta a história de dois irmãos gêmeos e um deles sofreu um acidente de moto, ficou em coma e perdeu totalmente a memória, lembrando-se apenas do irmão. mas claro que tem reviravoltas: ele vai descobrindo segredos sórdidos do passado

  • promising young woman. a protagonista de dia trabalha num café e de noite se vinga de homens que se aproveitam de mulheres vulneráveis em festas, que estejam sozinhas e beberam demais. no início parece meio banal e a gente fica meio OI AMADAH quando ela tem coragem de humilhar os caras na casa deles, tipo, sem sofrer nenhuma violência e os homens ouvindo o que ela tem a dizer. passada essa fantasia da disney, o filme se torna profundo e ganha reviravoltas. achei impactante a mensagem, porém achei tudo muito pessimista (em um mundo que já é horrível)

  • podres de ricos (telecine). sim, também assisto a coisas leves e esse é divertido em um sábado à toa com uma pipoca de qualidade. um boy de singapura leva a namorada de NY para o casamento de seu melhor amigo e lá ela descobre que ele é - podre de rico. tem vários momentos de comédia e fiquei com muita vontade de conhecer singapura, parabéns ao ministério do turismo de lá


sextou nosôtrica

[enviado em 20.08.2021]