.medo de alma

#15. novos e antigos mistérios. centro de sp é um grito na madrugada. encruzilhada. invocações no recreio. metaverso das freiras. avohai. cartomante. foucault, feiticeiras e possuídas. 7 links.

morar sozinha obriga a fazer uma gestão dos nossos medos. por exemplo, nunca assisto a filme de terror sozinha a noite - vejo no máximo de tarde, assim já terei esquecido antes de deitar (minha memória é tão horrível que você pode me contar a mesma piada que vou rir como se fosse a primeira vez, sou muito agradável como amiga e como pessoa). enfim, nunca me exponho voluntariamente a medos se eu sei que vou pagar por isso.

novamente uma news que vem com teor de mistério, clima que sustentamos desde a news da semana passada com o livro secreto que achei uó e que não será revelado, pois medo de ser incompreendida. falemos então de medos menos concretos.


a encruzilhada

o fato de eu morar numa encruzilhada (não um X, mas um T) tem consequências, pois além de medrosa sempre procuro conectar fatos e evidências. tenho certeza de que não é mero acaso a quantidade e variedade de coisas estranhas que acontecem aqui. deve ter algum campo energético, algum artefato enterrado, algo que precisa ser ainda resolvido. 

tem a velha do apartamento de cima que há uns três anos me chama de bruxa, sempre tem gritos (morar no centro de sp é se acostumar com gritos avulsos na madrugada), brigas, jovens descendo a rua fazendo coisas aleatórias e que param e x a t a m e n t e aqui, o vazamento de gás em que precisei descer de madrugada às pressas pra rua apenas com o celular e yg no colo (não saberia lidar com verdadeiras emergências), já teve uma pessoa que voltava de uma balada e morreu (sim) aqui na frente. enfim, já vi tudo * olha para o horizonte *

a chave, evidentemente, deve estar na casa nitidamente mal assombrada que fica e x a t a m e n t e ao lado do meu prédio, de frente para a encruzilhada. ela É a encruzilhada. corretíssima a cerca elétrica, pra nenhum fantasma sair. 

janelas entreabertas: um convite para ver um vulto passando. e tem um retrato na paredinha logo nessa entrada, de duas pessoas nitidamente mortas. devia ter sido uma casa bonita no tempo em que aqui era um grande bixiga com construções dessa. aliás tá pra alugar, talvez precise apenas de uma pintura #CativeirosEmSP

então quando se fala nesses sites de decoração em “casinha com alma” é isso que imagino.

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invocações na hora do recreio

era pra eu ser mais corajosa, dada a infância que tive. enquanto hoje a criançada fica negociando NFT ou construindo no minecraft, a gente tirava um tempo no recreio pra fazer invocações. bom, eu e meus amigos pelo menos (sempre um possível mal estar quando você diz: nossa, mas todo mundo fez tal coisa constrangedora; e você percebe que era só você). 👀

como morei na infância em três estados, posso afirmar que havia essa febre em várias regiões. rodinhas de crianças desafiando o inframundo (cultura maia ♥️) com a brincadeira do copo, do compasso, perguntando se a alma tava ali e o nome dela, apertando descargas pra evocar a loira do banheiro (e gente, se ela aparecesse? mas o bom era a expectativa, O PROCESSO). várias modalidades, sempre em busca de contatos, sinais, respostas.

parêntese explicativo aleatório

quando criança eu achava que era ‘um bigo’. que ‘bigo’ era o substantivo e o ‘um’ seria o artigo indefinido. poderia ser ‘o bigo’ caso fosse um umbigo específico. e tenho sempre muita aflição envolvida com o umbigo, é uma passagem que parece precariamente fechada e que vai pra dentro de nós. só pra ilustrar que eu era/sou esse tipo de pessoa. podemos então seguir.


freiras

falando em colégio, o mais misterioso em que estudei foi em uma congregação religiosa true (meus pais tentaram muito incluir preceitos católicos no meu dia a dia hahaha) das servas de maria. olha a energy do passado do lugar, que teria sido um orfanato:

eu tinha aulas com freiras e outros professores, entre 7 e 9 anos - fase em que a criança tá com a imaginação no pior caminho possível. tudo incitava o mistério (inclusive se fala muito em mistério da fé, então sempre ganha um quê secreto). tinha uma área comum na escola com jardim, salas de aula, quadra, coordenação, sala dos professores, capela, um pátio onde a gente tinha que formar fila e cantar o hino todo dia (vibe 1957, mas era 1990). ⛪

e tinha uma passagem disfarçada (sempre secreta) pra um lugar então chamado de paraíso. era onde as freiras moravam e era estritamente proibido tentar entrar lá.

nem consigo imaginar qual seria a punição divina pra quem desafiasse. claro que tentamos ver como era o outro lado. conseguimos uma brecha e descobrimos um gramado lindo. mas fomos flagradas. nada aconteceu, não teve um raio divino, mas rolou climão porque atrapalhamos a paz e a oração no metaverso das freiras. 

mas gente, elas não colaboram. custava fazer uma visita guiada com as crianças mostrando as instalações? ia reduzir a curiosidade e as ideias que iam se sobrepondo até criar um mundo paralelo e proibidão envolvendo terror, almas, clausuras, penitências e cultos. o mesmo vale pros bastidores da igreja, o backstage ali do padre. muito mais fácil se a gente já entrasse, visse tudo, o mistério da fé devidamente esclarecido na sociedade da transparência pra não gerar confusão.

durante um tempo comecei a ter pavor da escola. minhas amigas incentivavam histórias de que havia gente enterrada na quadra (galera era sem limite). mostravam manchas de cimento (a escola tava em obras) como evidência de que tinha alguém de fato enterrado ali. fazia TODO o sentido, naquele lugar cheio de cruzes, freiras e passagens. quase enlouqueci.

até hoje só durmo coberta, mesmo fazendo 43 graus, afinal o lençol traz importantes garantias de que nosso corpo não será levado durante a noite

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jesus do sbt

contemporâneo a isso, tinha o jesus do sbt. hoje nesse vídeo vejo apenas um cabelo sem hidratação, mas era um susto pra quem assistia a tv animal, bichinhos maritel e curiosidades. entrava jesus himself falando um dia vamos nos encontrar e vou chamar você de meu filho - em outras palavras, eu ia morrer né. e em seguida, a semana do presidente. medo atrás de medo.

como qualquer criança que nasceu nos anos 1980, também tive medo do zé ramalho, além dos discos da xuxa tocados ao contrário e seu pacto - discutíamos todas as provas nos recreios. fofão com punhal e velas dentro. maravilhosos os boatos do passado. um imaginário riquíssimo.

não estamos sós, tem almas, ETs e seres nas florestas remanescentes que querem falar com a gente.


mediunidade e cartomante

meu maior contato com sobrenatural na fase adulta foi com cartomante. adoro a cena, o décor, a linguagem corporal envolvida. quando morava em fortaleza, fui umas vezes na dona vilma, ali no dionísio torres. ela fazia uns banhos, rituais envolvendo pólvora, tirava cartas.

na última vez, indo embora da casa dela, eu disse: então dona vilma, vou fazer uma prova importante. e ela: eu sei (até aí ok, cartomante sendo cartomante). então ela pegou incensos e me defumou, me tremi todinha. e mandou a regra de ouro que sigo para tudo na vida: quando sair daquela porta não conte A NINGUÉM que você vai fazer essa prova. batata, passei. foi ela. foi o incenso. foi não contar pra ninguém.

ela também falou que eu era médium. acho que todo mundo já ouviu dizer que era, né. sinceramente, não é pra mim. mal consigo manter contato com os vivos no whatsapp.

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já ouviu a palavra de foucault hoje?

esse tema de medos e mistérios me leva ao livro os anormais, do foucault. acho que é um dos meus preferidos. cada capítulo, assim como em outros, é uma aula no collège de france. na aula de 26.02.1975, ele distingue possessão e feitiçaria. melhores temas.

na feiticeira a ideia de pacto é fundamental. há uma relação de troca consciente da mulher. o seu corpo é único e está a serviço ou penetrado pelos inúmeros exércitos de satã, belzebu, mefistófeles e quase outros 300 mil nomes de demônios na época da inquisição.

já a possuída será a mulher sob o poder do diabo. no geral uma mulher no centro da cristandade, como uma freira (você me mantém). ela resiste e ao mesmo tempo é receptáculo. diferente da feiticeira, o corpo da possuída é um corpo múltiplo, que se pulveriza numa multiplicidade de poderes que se enfrentam uns aos outros. taí alguém com mixed feelings.

é aí onde foucault quer chegar. o corpo da possuída, convulsionado em reações físicas fortes, misturando dor e prazer, é um fenômeno que a igreja nunca deu conta de explicar. a imagem da possuída evolui (modo de dizer) e alcança o século 19 na figura da histérica. expressão de descontrole - incluindo o sexual - na modernidade que ama a razão. ela não é mais punida pela igreja, mas “tratada” como problema mental pela medicina. o corpo da mulher produzido dentro de mecanismos de poder e em disputa.

o livro inteiro é sensacional.


claro que tenho medo do rascunho possuído do dostoievski


🔸7 links (número cabalístico)

  • não sei como vivi até hoje sem namaria fazendo mukbang

  • o feat de luisa sonza e clarice lispector é uma das pautas da news da gabi dourado, que estou super acompanhando :)

  • falando em news maravilhosas e encontros que só a internet proporciona, estou bff de pri pacheco, do mulheres que falam. o auge foi ler o mesmo livro ao mesmo tempo (o livro envolvia cultos e mistérios hahaha). coincidência, sintonia, sagrado feminino?

  • o podcast resumido concentra uma quantidade boa de informações e referências legais que aprofundam temas como redes sociais, tecnologia, privacidade

  • ops, a nestlé nos abandonou de novo é o segundo episódio da quarta temporada do podcast prato cheio

  • nojoooo do joão ‘de deus’. assisti à série sobre ele na netflix, sempre difícil ver uma pessoa sebosa e horrível à vontade com advogados igualmente sebosos e horríveis. é mais curta do que a série do globoplay (fica meio repetitiva em algum momento, mas traz depoimentos estarrecedores - como o da coreógrafa holandesa que foi foi a primeira mulher a contar sobre o abuso e não aparece na netflix). nem sei, nem tô recomendando, mas assisti

  • supernova é um filme interessante e curtinho (77 min) no prime video (estranho que aparece indisponível, mas vi semana passada). um casal briga, a mulher abandona a casa com dois filhos e aí é só tragédia num crescendo. acontece na polônia, mas tem energia de brasil pelo clima de corrupção e convulsão social. conciso, com boas atuações e se passa em uma estrada rural - adoro produções com um único cenário

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♥️ e sextou com um muito obrigada aos novos leitores que chegaram, fico sem palavras (sempre estourando o limite de caracteres)

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[enviado em 03.09.2021]