.cabelo

#21. aquamarine, neutrox & coquetel de frutas. franja da angélica. cheirar cabelo. a mulher que chora. barroca. não inviabilize. minimalismo. krenak. round 6. ny. cher na banheira.

como muitas pessoas, tive vários cabelos. e nem sempre aceitei o fato de ser ruiva, ainda que isso soe como um white people’s problem danado - e de fato é, quando a gente pensa em outros cabelos não aceitos e que precisaram de muita resistência durante séculos para existir. não vou fazer a marina ruy barbosa e chamar cabelo ruivo de representatividade (risos). mas enfim, tava olhando umas fotos minhas com cabelo grande, voltando uns anos no instagram e viajei.

lembrei de quando só existiam duas marcas de shampoo e creme (na minha família nunca chamamos ‘condicionador’, sempre foi CREME): aquamarine e neutrox. certamente havia outras, mas acho que lá em casa a gente não tinha muito acesso. naquele tempo tudo tinha duas, três marcas no máximo.

difícil explicar isso para a geração de hoje, que tem disponível o low poo quântico para cabelos tingidos em transição que são oleosos na raiz e secos nas pontas de orleans e bragança, nas fragrâncias priprioca, cumaru do cerrado, tapioca do norte e flor novinha de sabugueiro. além de aquamarine e neutrox, tinha o coquetel de frutas, um pote de 1,5kg (venho de um tempo sem sutilezas) de creme bifásico com 5 cores (pentafásico?) que a gente misturava no próprio pote, ele ficava com um cheiro meio doce e tom acinzentado e eu passava no cabelo pra fazer TOUCA. a gente colocava toda uma expectativa de hidratação numa gororoba daquela. tempos ingênuos aqueles. 

sem contar as máscaras naturais com OVO, abacate, um pepino nos olhos, a gente fazia um poke no nosso corpo em busca da beleza e era amplamente aceito. inclusive a gente tinha uma touca térmica, que hoje com certeza é proibida pelo inmetro, pela anvisa e pelo tribunal de haia. o mundo com certeza aboliu a touca térmica. porque imagina uma touca plástica com fios elétricos que a gente coloca na cabeça MOLHADA (no ceará a tomada é 220v, avalie o estrago) pra potencializar a hidratação caseira. deus é mais hahahahaha. a geração 80’s tem corpo fechado.

por muito tempo meu cabelo não teve corte algum. os cachos eram escovados e ficavam armados, uma secura danada nos fios. muita desinformação sobre como tratar, né. e claro que tive meu cabelo sugado pelo ventilador em dado momento.


por volta de 8 anos, cismei que eu queria ter a franja da angélica. mas mãe, o cabelo dela também é cacheado e ela ao mesmo tempo tem franja. eu sempre quis MUITO ter franja, criada pela xuxa mas que via na angélica alguma possibilidade. e minha mãe explicando que aquela franja era escova, que quando a angélica lavava o cabelo ele enrolava com certeza como o meu. e eu ‘não mentira’.

e aqui vai um importante parêntese: eu era (sou) uma criança absurdamente teimosa. uma porta. tudo eu discutia. então se eu queria, tinha que ser daquele jeito porque eu estava certa (gente, eu amo estar certa. quando acontece é ótimo). minha mãe escolhia as brigas, esperta sempre, e quando via que não adiantava ela simplesmente mandava um ‘ok’, naquele tom de ‘depois não diga que eu não avisei’. 

daí ela me levou pra cortar o cabelo e fazer a franja da angélica. na hora escovaram minha franja, ficou lisa, me senti no clube da criança de bota branca, transportada para a tv manchete amando, lendo uma das cartas da pilha de cartas (meu sonho, me deixa). durou até eu tomar banho e a franja encaracolar, meu cabelo ficou tipo o do luis caldas. a ex-franja acabava antes da metade da testa, transformada em quatro rolinhos. minha mãe, vitoriosa, nem disfarçava. e aí não me restou outra opção além de fazer uma engenharia diária de guardar a franja meio que dentro do arquinho até que ela voltasse a igualar com o resto do cabelo - o que levou ANOS. 

nem vou comentar quando escondida de todos passei um daqueles shampoos totalizantes porque queria ser castanha e obviamente ficou muito errada a cor. novamente tive que lidar com o ridículo até que a cor fosse embora depois da vigésima lavagem.

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mesmo quando fui ficando maior, continuei a não entender o tempo, o dinheiro e a dedicação que as mulheres investiam no cabelo, ainda que respeite, tudo bem cuidar do cabelo. e a pena que sempre tinham de cortar, também nunca entendi bem.

convivi com pessoas que tinham cabelos imensos. elas passavam todos os sábados das vidas delas no mulher cheirosa (um salão enorme, um potentado, de fortaleza) fazendo a escova de kiwi, de chocolate e de algas, pintando as pontinhas, blindando as queratinas e tudo mais. normalmente tiram um dia inteiro em casa pra lavar o cabelo (eu nunca soube o por quê dessa demora, eu nunca passei mais de 15 minutos nisso).

entendia ainda menos as mulheres que têm uma mania de cheirar o próprio cabelo. vocês já devem ter visto, elas estão aqui normal e de repente pegam uma mecha do próprio cabelo e colocam no nariz, como um bigode, e ficam se cheirando. enfim, cada qual com seu cada qual, mas essa nunca foi minha prioridade. aliás, em geral eu tenho um pouco de nojo de cabelo alheio, especialmente molhado quando gruda no ombro e nas costas.

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da adolescência até o início da fase adulta, segui a vida sem ter um corte de cabelo. aparava as pontas mas vivia com ele sempre amarrado, décadas. e acredito que amarrada também estava minha personalidade. simplesmente odiava meu cabelo solto. passado um tempo, deixei de amarrar mas sempre usava grampos, prendendo bem o cabelo à cabeça. não queria um fio fora do lugar. anos depois fui cortando, cortando até que cheguei na versão que tenho hoje, meio pixie, super curto - no qual me encontrei e hoje amo, cuido - mas sigo nunca passando mais de 15 minutos dedicada à lavagem do pób. 

já tive muito problema de achar que os outros me enxergavam de forma infantilizada por eu ter cachinhos, principalmente se eu ia trabalhar em um ambiente com mais homens e tal. não tinha jeito, eu realmente não me sentia levada a sério enquanto tive aquela aparência meio barroca, que não era pra mim. não era eu. enfim, acho lindo quando a gente se encontra e finalmente chega num cabelo que expressa quem a gente é.

impressionante as voltas que a gente precisou dar para chegar AQUI.

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a mulher que chora

claro que em uma news com o tema cabelos eu precisava falar desse livro bem lindo. chama a mulher que chora, de su tong (companhia das letras, 2010, 256 p). cada vez mais me surpreendo positivamente com a literatura do lado de lá do mundo.

fui muito atraída pela sinopse que fala da saga de Binu, que atualiza um antigo mito chinês. ela vive na aldeia do Pêssego e lá é proibido chorar. então especialmente as mulheres inventam estratégias para dissimular as lágrimas - e Binu chora pelos cabelos. um dia, o marido dela desaparece e o livro inteiro é a saga dela indo até a grande muralha para encontrá-lo e lhe entregar um casaco de frio. ela vai passando por várias cidades e encontrando muita gente que a questiona e não ajuda. é angustiante. 

o que mais me impressionou na jornada é o quanto as pessoas a julgam precipitadamente, a acusam de louca, de ladra, de bruxa, de tudo, baseados em nada. desiludida, ela conclui em um momento que “Tudo que preciso fazer para acreditarem em mim é mentir”. gente, FODA, porque isso é HOJE, AGORA. 

além das injustiças, da persistência e do sofrimento da Binu, o livro abre para um imaginário muito rico conectando as pessoas e a natureza. um sapo cego é um dos personagens, reencarnação de uma mãe que também procura o filho. e tudo bem, ela fala com o sapo, faz todo o sentido e a história segue. e assim as montanhas, o solo, as nuvens, a chuva, os animais, tudo vai compondo um imaginário muito bonito de uma natureza presente, reverenciada e que faz parte do tempo - passado e futuro. tem umas frases que misturam corpo e natureza, lindas mesmo.

‘um céu carregado de água adensou-se dentro dos olhos dela, e a chuva começou a cair’. 


baleiês

gente, mas e essa baleia maravilhosa. acho baleia um lance emocionante. polvo também, mas baleia e golfinho são especiais né. a gente sabe tão pouco sobre eles e, quando os contemplamos, ficamos nesse maravilhamento.

que a nossa sexta seja tão tranquilinha como esse video lindo.

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  • “perguntar para uma criança o que ela quer ser é uma ofensa. isso é apagar o que já é”. eu não poderia concordar mais com ailton krenak, questionando o tanto que o trabalho (logo, o capitalismo) é naturalizado como a principal parte da identidade da pessoa. e não era pra ser.

  • falando em capitalismo, vocês viram round 6 na netflix? passada que levou 10 anos para ser realizado. super violento, perturba o lance com brincadeiras infantis, mas não é o mais original dos roteiros, especialmente num país que tem baluartes como luciano huck em provas como equilibre o ovo na colher até a linha de chegada e então faltarão apenas duas cambalhotas e três respostas corretas para você ganhar a reforma parcial da sua cozinha.

    enfim, sempre vale a pena ver o sistema ser questionado, especialmente o uso canalha das noções de igualdade e democracia, assim como a forma com que opera a tolerância em relação à violência e os limites éticos super voláteis. amei manu gerino dando a real sobre round 6 e a vida como um todo em sua resenha:

  • filme simpático e sem nada de mais, my salinger year (ou meu ano em nova york, da netflix) é baseado em uma autobiografia e fala de joanna, uma jovem formada em literatura que sonha em ser escritora e vai para NY. ela começa a trabalhar em uma agência literária (a chefe é sigourney weaver) e sua principal tarefa é responder as cartas de fãs que chegam para o escritor J. D. Salinger, que é recluso e jamais responde cartas. ela faz uma micro amizade com ele, tem todo o clima legal de vida ao redor dos livros, curiosidades, aparece a rachel cusk do nada em uma ceninha legal, tem NY itself, enfim. para ver com aquela pipoca barata inocente, sem pretensão.


sextou suave e fresh na banheira com cher

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[enviado em 15.10.2021]

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